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Jardim Ângela: Contrariando a estatística
Setembro 29, 2007, 6:33 pm
Filed under: Babilônia

 

O distrito do Jardim Ângela possui 300 mil habitantes. Vizinho do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, passou por verdadeira revolução: Em 1995, o distrito apresentava uma taxa de 112 homicídios por 100 mil habitantes* (índice que subia para 200/100 mil quando calculado apenas sobre a população masculina entre 15 e 25 anos). No fim dos anos 90 foi apontado pela ONU como a região mais violenta do planeta. Apenas para efeito comparativo, à mesma época o distrito das Perdizes, onde se localiza a Pontifícia Universidade Católica, tinha uma taxa de 6 homicídios por 100 mil habitantes. Porém de 1999 até 2005, ano em que os últimos dados foram divulgados, o número de homicídios no Jardim Ângela não para de cair – verificou-se uma queda de mais de 50%, sendo que em 2005 o índice atingiu seu número mais baixo em décadas: 43 homicídios por 100 mil habitantes.

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Lápides cobertas com retratos de falecidos: Cemitério São Luiz, Jardim Ângela

O que levou a esta queda acentuada no número de homicídios em tão pouco tempo? Um dos fatores, e talvez o mais importante, foi uma tomada de consciência da comunidade e seu envolvimento no processo de busca por soluções. Inúmeras entidades também atuaram no distrito, uma delas, referência lá desde 1989 é a Sociedade Santos Mártires liderada pelo padre irlandês Jaime Crowe. Segundo o Padre Jaime “Era pior do que em Cali, na Colômbia, e foi nessa época que comecei a questionar a situação, pois eu estava enterrando gente diariamente, celebrando missas de 7º dia todos os dias, já que cerca de 60 pessoas eram assassinadas todos os meses. E não era esse o meu papel como religioso”.

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O “Incansável” Pe. Jaime discursa durante a Caminhada pela Vida

O passo inicial foi organizar em novembro de 1996, uma Caminhada pela Vida até o Cemitério São Luís, com mais de 5 mil pessoas protestando contra a violência e a ausência de serviços públicos na região. Em seguida foi fundado o Fórum em Defesa da Vida, que congrega mais de 200 entidades. O Fórum organiza Tribunais Populares, onde julgamentos são encenados, tendo como réus os governantes, culpados pelo abandono da região. No Jardim Ângela, o único braço do Estado que entrava em suas ruas esburacadas e vielas era a Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, a ROTA da Polícia Militar. O poder público também teve seu papel na melhora das condições de vida do Jardim Ângela: pressionado pelo Fórum em Defesa da Vida e pela comunidade, implementou projetos de bases comunitárias na região, e ampliou o número de equipamento públicos disponíveis para os moradores.

Nem tudo são flores no Jardim Ângela. Num dia útil qualquer durante o horário comercial, ao circular pelo Jardim Nakamura (bairro do Jardim Ângela) o cenário é desolador: Dezenas de jovens desempregados jogam bola na quadra da escola ou simplesmente matam o tempo conversando nas portas de suas casas ou em “praças”. Lá, o desemprego alcança preocupantes 50% da população economicamente ativa, segundo o IBGE. A violência ainda está presente. De acordo com um jovem morador do Nakamura “Na rua 2 o chicote estala…” diz ele em referência a uma rua conhecida por ser palco de conflitos violentos. Ainda há muito a ser feito, mas o progresso alcançado mostra que é possível melhorar as condições de vida nas periferias de São Paulo. No final de outubro o Jardim Ângela sediará, juntamente com o distrito do Grajaú, também na zona sul, o III Fórum Social Sul, com o tema “Uma outra periferia é possível, necessária e urgente!”, mostrando que o distrito continua sendo referência de mobilização e articulação popular.   Mano Brown, em entrevista ao programa Roda Viva da Tv Cultura nos lembra que “sem a ajuda e envolvimento da comunidade, não muda nada. Porque a assistente social conhece 70% da realidade do local. O cara da ONG conhece 80. Só quem sabe 100% mesmo é o morador, nascido e criado lá”.          

*Fonte: Fundação SEADE      

Gil Alessi

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