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Por Marcus Vinicius Pilão
A imigração japonesa para o Brasil tem seu primeiro registro em 1908, quando o navio Kasato Maru aportou em Santos. Desde então a chegada de japoneses ao Brasil nunca mais parou. Claro que em certos momentos (como durante a segunda guerra mundial) esse fluxo foi interrompido, mas sempre era retomado em seguida.
São esses imigrantes, que ajudaram construir traços marcantes da cultura paulista, os personagens dessa reportagem.
Raízes no Brasil
Nosso primeiro personagem é Onirishi Senjo, filho de imigrantes japoneses cresceu em Rio Claro, interior de São Paulo, “Minha infância foi muito boa e tranqüila. Meu pai nos deu ensinamentos de vida muito rígidos, que tentei passar para todos os meus filhos. Na época nós ajudávamos nas colheitas e trabalhávamos muito, mas mesmo assim meu pai sempre fez questão do estudo”, afirma.
Através do estudo Onirishi conseguiu construir sua vida em São Paulo, “Vim para São Paulo para terminar meus estudos. Através do exemplo do meu pai fui à luta, estudei muito, morei em uma casinha de quarto e banheiro no inicio, mas consegui me graduar e garantir meu futuro”. Onirishi se formou em Geografia, sendo um professor apaixonado desde então, “Meu maior orgulho é ensinar as pessoas… essa é a minha paixão!” Exclama.
Casado há 42 anos, Onirishi é pai de 2 filhos, que lhe deram 3 netos, “Meus filhos e netos são meu tesouro, tento passar para eles o mesmo que meu pai passou para mim”. Neste momento os olhos do experiente professor de geografia ficam marejados. Ele fala dos filhos com o mesmo amor e respeito que reserva ao seu pai.
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Brasileira de Coração
Os pais de Karen Mineo são Brasileiros, conheceram-se aqui, trabalharam e construíram sua vida na capital paulista. Karen é japonesa, legítima, nascida no Japão, ela mesmo explica, “Meus pais forma trabalhar no Japão por um período, para juntar uma grana…nesse meio tempo eu nasci. Sou japonesa mas meu coração é brasileiro!”.
Não haveria de ser diferente, logo aos dois anos, Karen chegou em São Paulo, “Aprendi a falar português facilmente, pois ainda era criança e aprendi naturalmente”. Mas e o japonês? “Ainda falo bem, entendo tudo e converso normalmente em japonês, sempre estou treinando”.
Karen afirma amar a cidade de São Paulo, “Aqui me sinto bem, adoro essa badalação, esse agito, acho que no Japão ficaria meio deslocada”. Ela é economista, trabalha no banco Itaú e se diz solteira por opção, “Acho que só vou me amarrar mesmo se aparecer alguém que me complete, mas ta difícil”, reclama.
A única coisa que a tira do sério são as pessoas que acham as orientais são todas iguais, “Odeio quando dizem que Japonês, Chinês, Coreano, são todos iguais, cada povo tem sua cultura, seu jeito, seus costumes, acho que nem a aparência é tão parecida assim. Isso é a única coisa que me tira do sério”, conclui.
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Vai e volta
Roberto Hideoshi nasceu no interior de São Paulo em 1982. Cresceu em solo pátrio, estudou, se formou e decidiu fazer o caminho inverso dos seus avós, ele mesmo relata: “Decidi ir ao Japão para ganhar dinheiro mesmo, essa é a verdade, não tinha outro motivo”. Então, em Junho de 2002, já com quase 20 anos, Roberto embarcou para a terra natal de seus descendentes. Ele conta que, “no começo foi muito difícil, não falava quase nada de japonês, pra me comunicar era duro. Mas logo arrumei emprego em uma lanchonete”.
A vida de um imigrante no Japão é muito dura, segundo ele “morava com um outro brasileiro que tinha ido antes para lá, nossa vida era trabalho, trabalho e trabalho, quase não tinha lazer ou coisa do tipo”. Ele relata ainda que “guardava toda a grana que ganhava, só gastava o básico do básico, pra juntar logo e voltar para o Brasil”.
A tão esperada volte se deu em 2006, “Já tinha conseguido juntar a grana que eu queria, não tinha mais motivo para ficar lá”. Roberto então desembarcou novamente no Brasil, para tocar um negócio próprio.
Com o dinheiro conseguido no Brasil abriu uma lan-house em Santo Amaro, “O negócio ta indo bem, não posso reclamar, é difícil como qualquer outro trabalho”. Se engana quem pensa que a experiência anterior impediria uma volta ao Japão, “Se precisar voltar ao Japão pra me reerguer de novo, eu volto sem problemas, volto nem que seja para colher graveto no campo”.
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O distrito do Jardim Ângela possui 300 mil habitantes. Vizinho do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, passou por verdadeira revolução: Em 1995, o distrito apresentava uma taxa de 112 homicídios por 100 mil habitantes* (índice que subia para 200/100 mil quando calculado apenas sobre a população masculina entre 15 e 25 anos). No fim dos anos 90 foi apontado pela ONU como a região mais violenta do planeta. Apenas para efeito comparativo, à mesma época o distrito das Perdizes, onde se localiza a Pontifícia Universidade Católica, tinha uma taxa de 6 homicídios por 100 mil habitantes. Porém de 1999 até 2005, ano em que os últimos dados foram divulgados, o número de homicídios no Jardim Ângela não para de cair – verificou-se uma queda de mais de 50%, sendo que em 2005 o índice atingiu seu número mais baixo em décadas: 43 homicídios por 100 mil habitantes.
Lápides cobertas com retratos de falecidos: Cemitério São Luiz, Jardim Ângela
O que levou a esta queda acentuada no número de homicídios em tão pouco tempo? Um dos fatores, e talvez o mais importante, foi uma tomada de consciência da comunidade e seu envolvimento no processo de busca por soluções. Inúmeras entidades também atuaram no distrito, uma delas, referência lá desde 1989 é a Sociedade Santos Mártires liderada pelo padre irlandês Jaime Crowe. Segundo o Padre Jaime “Era pior do que em Cali, na Colômbia, e foi nessa época que comecei a questionar a situação, pois eu estava enterrando gente diariamente, celebrando missas de 7º dia todos os dias, já que cerca de 60 pessoas eram assassinadas todos os meses. E não era esse o meu papel como religioso”.

O “Incansável” Pe. Jaime discursa durante a Caminhada pela Vida
O passo inicial foi organizar em novembro de 1996, uma Caminhada pela Vida até o Cemitério São Luís, com mais de 5 mil pessoas protestando contra a violência e a ausência de serviços públicos na região. Em seguida foi fundado o Fórum em Defesa da Vida, que congrega mais de 200 entidades. O Fórum organiza Tribunais Populares, onde julgamentos são encenados, tendo como réus os governantes, culpados pelo abandono da região. No Jardim Ângela, o único braço do Estado que entrava em suas ruas esburacadas e vielas era a Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, a ROTA da Polícia Militar. O poder público também teve seu papel na melhora das condições de vida do Jardim Ângela: pressionado pelo Fórum em Defesa da Vida e pela comunidade, implementou projetos de bases comunitárias na região, e ampliou o número de equipamento públicos disponíveis para os moradores.
Nem tudo são flores no Jardim Ângela. Num dia útil qualquer durante o horário comercial, ao circular pelo Jardim Nakamura (bairro do Jardim Ângela) o cenário é desolador: Dezenas de jovens desempregados jogam bola na quadra da escola ou simplesmente matam o tempo conversando nas portas de suas casas ou em “praças”. Lá, o desemprego alcança preocupantes 50% da população economicamente ativa, segundo o IBGE. A violência ainda está presente. De acordo com um jovem morador do Nakamura “Na rua 2 o chicote estala…” diz ele em referência a uma rua conhecida por ser palco de conflitos violentos. Ainda há muito a ser feito, mas o progresso alcançado mostra que é possível melhorar as condições de vida nas periferias de São Paulo. No final de outubro o Jardim Ângela sediará, juntamente com o distrito do Grajaú, também na zona sul, o III Fórum Social Sul, com o tema “Uma outra periferia é possível, necessária e urgente!”, mostrando que o distrito continua sendo referência de mobilização e articulação popular. Mano Brown, em entrevista ao programa Roda Viva da Tv Cultura nos lembra que “sem a ajuda e envolvimento da comunidade, não muda nada. Porque a assistente social conhece 70% da realidade do local. O cara da ONG conhece 80. Só quem sabe 100% mesmo é o morador, nascido e criado lá”.
*Fonte: Fundação SEADE
Gil Alessi
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A bicicleta é um veículo composto de duas rodas presas a um quadro movido pelo esforço do próprio usuário através de pedais. Na década de 60, o grupo ativista político Provos praticou uma forma de intervenção social, colocando nas ruas de Amsterdam bicicletas brancas que poderiam ser usadas por quem precisasse se locomover, sem qualquer relação de propriedade com o objeto. As bicicletas brancas eram abandonadas na rua por seu usuário, para que o próximo individuo que passasse a pudesse usar, e assim em diante. Em 2007, parte da população da cidade de São Paulo se propõe a participar do dia internacional sem carro. Neste sábado, homens e mulheres, dotados de profundo senso cívico, irão deixar seus automóveis na garagem e darão uma volta a pé, indo até a Avenida Paulista ou, no máximo, ao parque Ibirapuera. Levarão seus cachorros para passear ou seus filhos para um piquenique. Alguém vai sair com a namorada, e os dois, investidos de um profundo sentimento de responsabilidade ecológica, farão um passeio até o cinema Espaço Unibanco, na Rua Augusta. No meio tempo, entre motos e automóveis, a cidade de São Paulo ganha, por ano, 317.550 novos veículos.
Segundo dados do blog Apocalipse Motorizado, mais de 1.500 pessoas morrem em acidentes de automóvel por ano, apenas na cidade de São Paulo. É impossível quantificar as mortes causadas indiretamente pelos carros, através da poluição. Hoje, no dia mundial sem carro, às 15 horas, foi registrado um congestionamento de 2 km na Avenida dos Bandeirantes, no trecho entre a Avenida Miruna e a Alameda dos Jurupis, segundo o CET. Pra completar, um estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP feito em seis capitais brasileiras, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife, indicou que nenhuma delas atende ao padrão da Organização Mundial da Saúde para a poluição no ar. De todas, porém, Sampa continua com o título de capital mais poluída do Brasil.
A triatleta Fernanda Clemente Schiliró, que em Outubro disputaria a final do circuito Ironman no Havaí, morreu atropelada no domingo retrasado, dia 9 de Setembro, enquanto andava de bicicleta às margens da Rodovia dos Bandeirantes. No meio tempo, o presidente da CET, Roberto Scaringella, afirma que “não é prudente andar de bicicleta nas ruas de São Paulo”. Não deixa de ser verdade, afinal, são apenas 4,5km de ciclovias nas ruas da cidade. E como a CET não faz o seu trabalho, ciclistas de São Paulo criaram, por conta própria, faixas preferenciais para bicicletas em algumas vias importantes, como a Avenida Paulista e a Sumaré, pintando sobre a faixa da direita uma bicicleta em tinta branca. Foram chamadas de ciclovias clandestinas. Porque não fazer ciclovias oficiais, ao invés de dizer que é perigoso andar de bicicleta? Ah, sim, claro. Os paulistanos andam pouco de bicicleta. Ciclistas representam apenas 6,2% das vitimas de acidentes de trânsito. A maioria das vitimas, 49,7%, são pedestres.
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Os organizadores escrevem um capítulo inédito, nele, os novos antropófagos tratam pouco de estética e muito de política e comportamento.
Oitenta e cinco anos depois do marco do movimento modernista, a Semana de Arte Moderna de 1922, Sérigo Vaz, poeta da periferia de São Paulo, organiza a Semana de Arte Moderna da Periferia. A força da Semana de 2007, que acontece de 4 a 11 de novembro, vem da primeira geração de escritores da periferia. Pela primeira vez, o Brasil tem um movimento literário nascido nas margens da cidade de São Paulo.
Vaz vive nos arredores de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Deixou uma carreira de auxiliar de escritório para ser poeta no Brasil, vendeu 5 mil livros de poesia sem editora e sem livraria, de mão em mão. Em 2001, ele criou a Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) ao ocupar uma fábrica abandonada para fazer um evento de arte.
O sarau da Cooperifa passou de bar em bar até achar seu lugar no boteco do Zé Batidão, na zona sul de São Paulo. Toda quarta-feira, três centenas de cidadãos periféricos ali desembarcam depois de um dia de trabalho duro para fazer e ouvir poesia. A Semana de 2007 começou a nascer nessa esquina.

O primeiro ato da Semana será uma caminhada dos artistas pela periferia. Nada irá acontecer no centro. “Quem quiser conhecer o que se passa nas bordas de São Paulo terá que inverter o tráfego”, diz Vaz. Os grupos Manicômicos (teatro), Arte na Periferia (cinema), Espírito de Zumbi e Umoja (dança) são alguns dos chamados “focos de resistência” que tentam impor sua estética em ruas onde antes só corria esgoto.
Os novos antropófagos
“Aqui o tráfico não é nem de maconha, nem de cocaína. Nós traficamos livros”
Alessandro Buzzo, residente do Itaim Paulista, declara-se “Suburbano Convicto, escritor da Periferia”. Começou a escrever por indignação e hoje, aos 35 anos, já tem quatro livros publicados. O último deles um romance, Guerreira, que editou na base de prestação, pagou uma parte com feijão, arroz, macarrão e azeite. Há alguns meses vive de arte, R$ 1500 por mês. Criou uma biblioteca num bloco carnavalesco. Comanda o Favela Toma Conta, evento anual de hip-hop. Duas vezes por mês faz o Cine Favela, levando filmes brasileiros às periferias. Dá oficinas de escrita para os garotos da Febem.
“O Brasil só vai melhorar quando o povo começar a roubar livros em vez de armas, drogas e dinheiro”
Ademiro Alvez, mais conhecido como Sacolinha, diz que se não fossem os livros ele estaria a sete palmos do chão. Filho de pai sumido e mãe feirante, trabalhou dos 9 aos 21 anos como cobrador de lotação. Terminou o ensino médio “semi-analfabeto”, sem entender o que lia. Aos 18 anos ele começou a ler, roubando livros da própria família, ampliou suas atividades por livrarias, bienais e conferências. Aos 22 fez uma rifa para publicar seu primeiro romance. “Salvo” pela literatura, Sacolinha criou uma ONG para divulgar os novos autores, organizou trocas literárias para abastecer bibliotecas, criou sarau de poesias e entrou na faculdade de Letras. Desde 2005 é coordenador de literatura da Prefeitura de Suzano, na Grande São Paulo.
Martha Furtado Kanagusko
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A Grande São Paulo tem uma frota de mais de cinco milhões de veículos sobre rodas e nos horários de pico, principalmente ás vésperas de um feriado prolongado sempre causa grande stress aos condutores. Em outros tempos, o avião era o meio mais utilizado pelos grandes empresários ou executivos para encurtar tempo e distâncias. No entanto, com a disputa entre as empresas de aviação para obter mais lucros, houve um crescente número da procura destes meios por pessoas de outras classes sociais devidos o barateamento dos bilhetes aéreos, tendo como conseqüência: superlotação, filas, atrasos, crise aérea e os acidentes aéreos acontecendo num intervalo de tempo muito assustador. Alia-se a isso, o medo de seqüestros e a necessidade de domínio do tempo para o cumprimento de compromissos profissionais.São Paulo, metrópole mais rica do país, tem uma frota notável, sendo que parte dela está a disposição através das empresas de táxi aéreo que oferecem fretamento de vários modelos de helicópteros; o que não é barato, no entanto, justifica o gerente comercial de uma delas: ”Em muitos casos, o fim para o qual a pessoa irá utilizar o serviço vai compensar sua utilização” e completa: ”O helicóptero é uma ferramenta de trabalho, não apenas um luxo”.
Quanto Pagar?As empresas cobram por hora de vôo. Isto significa que o cronômetro começa a rodar a partir do momento que o helicóptero decola e só termina quando ele volta a seu ponto de partida. Os valores variam de R$ 1.300,00 a R$ 6.500,00 a hora, dependendo do modelo.Na região de Alphaville e Tamboré existem dez helipontos homologados pela Anac, todos eles particulares. Em Carapicuíba, Com 45 mil metros quadrados de área construída, está o Helipark, próximo ao Rodoanel, sendo usado principalmente, como base de manutenção de aeronaves.
Alguns, entre eles políticos passaram a utilizar-se de helicópteros para driblar os intermináveis congestionamentos para ter “segurança” nas alturas. Enquanto isso, pobres mortais seguem nos trens e ônibus lotados, apertados como enlatados de sardinhas, onde quase sempre tem os direitos desrespeitados, utilizando-se de frotas sucateadas sem o mínimo de conforto possível, além de ter que se justificar sempre aos patrões, devido aos constantes atrasos em função de atrasos das conduções que utilizam. Considerar que se usufruir de helicópteros não é somente luxo há alguém que concorde.Porém, dizer que o transporte e as condições viárias na Grande São Paulo são um lixo, difícil é encontrar quem discorde.
João Botelho
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A luta daqueles que escolheram São Paulo como lar.
O processo migratório de nordestinos para São Paulo tem seu primeiro registro em 1.901. O fluxo desses migrantes começou a intensificar-se em 1.923, quando foi registrado um grande número de entrada de nacionais no Estado Paulista, que, juntamente com a mão de obra estrangeira, passou a desempenhar importante papel na sociedade, ainda predominantemente rural, da época.
Em 1935, o governador Armando Salles de Oliveira, passou a estimular a migração de nordestinos para São Paulo, estipulando contratos com empresas particulares, em que trabalhadores migrantes seriam introduzidos na produção, através do pagamento da passagem para vinda ao estado bandeirante e de um pequeno salário para sustento da família do trabalhador. Deu-se, neste momento, o “boom” migratório, originando a grande quantidade de nordestinos estabelecidos em São Paulo. São esses personagens, com todas as suas peculiaridades, os alvos de nossa reportagem.
“Entrando de cabeça” nas dificuldades
Se hoje, em plena era da chamada globalização, é difícil a chegada e a ambientação de uma pessoa a um lugar desconhecido, em meados de 1.950, esse calvário era ainda maior. É o caso do migrante Sergipano, José Joaquim do Santos, 75, que chegou a São Paulo em 1948 de forma traumática. Após dias de viajem em um caminhão “pau-de-arara”, José literalmente “caiu de cabeça” na capital paulista. Quem conta a história é o próprio: “Eu tinha 16 anos na época, quando soube que um caminhão estava saindo de Sergipe e vindo para São Paulo. Me escondi no meio dos trabalhadores e vim para cá, apenas com a roupa do corpo”. Na chegada, a primeira grande provação, “O caminhão tombou com todo mundo dentro, o pessoal se machucou demais. Eu tive um corte na cabeça, bem no meio da testa, tive que enfiar a cabeça na areia para o sangramento parar”. Levado ao hospital das clínicas, o garoto, que não conhecia ninguém na cidade, despertou a compaixão de um médico, que ajudou o jovem sergipano a conseguir o primeiro emprego: ajudante de pedreiro.
José trabalhou com afinco nas construções da capital paulistana. Nos finais de semana, trabalhava na perfuração de poços artesianos na região de Caieiras, local onde firmou moradia. “Com muito sacrifício consegui construir minha casa, fiz um trabalho muito bonito. Tudo que eu fazia era bem feito, por que eu fazia com vontade” afirma. Após anos na construção civil, ajudando a construir parte da história da cidade, José, que na época já começara a constituir família, passou a trabalhar como metalúrgico, “Foi uma época difícil, pois os filhos eram pequenos, muitas bocas para alimentar”. Muitas bocas mesmo, ele é pai de 11 filhos “todos bem criados e trabalhadores”, trabalhou ainda como motorista durante mais de 20 anos, profissão na qual se aposentou.
Hoje, 59 anos após sua chegada, José só tem motivos para comemorar, “Meus filhos são todos maravilhosos, nenhum saiu da linha, mesmo com todas as dificuldades, me deram netos muito bons também, já tenho quatro bisnetos e mais dois estão a caminho”. Alicerce de uma família bem estruturada, José atualmente é pastor da igreja evangélica Assembléia de Deus, onde tenta ensinar, através da sua vivência, bons exemplos para os jovens.
Vencendo, também, no alto empresariado.
É Comum e errôneo, chega até a ser xenófobo, o pensamento de que os migrantes nordestinos estão fadados apenas a exercerem atividades braçais em São Paulo. Não que essas atividades não sejam importantes, o exemplo anterior é prova disso, mas são vários os casos de pessoas que já chegam com cargos de gerência. Exemplo vivo dessa vertente é o empresário Nilson de Almeida Cruz, 62.
Natural de Recife e trabalhando em Fortaleza, Nilson já tinha a vida profissional estruturada, exercia cargo de gerência na Cobra Computadores, maior empresa brasileira de informática da época, quando recebeu uma proposta tentadora, “Sair da penúltima filial, para assumir a gerência da primeira. Foi um grande e maravilhoso desafio”. Dessa forma, em Julho de 1979, o empresário desembarcava na capital paulista. Sua chegada foi marcada por muito trabalho “trabalhava 12 horas por dia, pois, recebia 14 malotes diários até que por minha conta resolvi delegar muita coisa para os supervisores, o que reduziu para 4 malotes e me permitiu administrar melhor a filial e visitar clientes importantes”.
Mesmo exercendo cargo tão importante, a vida profissional de Nilson não esteve livre de percalços, “A Cobra foi encolhida por decisão do Governo para deixar o mercado mais livre para as empresas privadas. Assim, a minha função foi extinta quando era o superintendente regional sul (de São Paulo até o Rio Grande do Sul), montei, então, uma empresa de informática com produtos usados da Cobra e dava cursos de vendas com duração de 40 horas”. Foi então que o empresário decidiu mudar de ramo, “Com o advento dos micros as margens apertaram muito e assim migramos gradualmente para a área de turismo, onde permanecemos até o presente momento”. Hoje Nilson é dono da Walk Brasil Turismo, empresa com 13 anos de mercado.
Engana-se quem pensa que o maior momento de frustração do empresário está ligado ao trabalho, “O pior momento em São Paulo, foi a morte prematura de Ayrton Sena, pois, eu morava na rua Tupi, a 50 metros do apartamento dele e diversas vezes via a gurizada em baixo do prédio que ele morava, esperando a saída em sua lótus preta, com uma simplicidade extraordinária jogar um boné para esses garotos. Um dia estou saindo do meu prédio e vejo um alucinado deixar a porta do monza aberta e sair correndo atrás do Senna para conseguir um autógrafo e ele sozinho no carro, parou, deu o autógrafo, sorriu e é claro eu também peguei o meu autógrafo. Naquele 1º de maio eu ia com a família para Aparecida. Esperei a largada e quando vi o acidente, ele tombou a cabeça, eu sabia que tudo estava consumado e fui rezar por ele”. O empresário garante que “Se fosse possível voltar o tempo o que eu faria se pudesse era ter vindo antes e continuar trabalhando em grandes empresas”.
Uma revolução em 14 anos
Francismar Geronimo Lino, 31, cearense de Altanera, veio para São Paulo, em busca do irmão, no início de 1993. Ele pegou o ônibus, que vinha para capital paulista, apenas com a roupa do corpo e sem saber nem ao menos onde o irmão morava, “Eu achava que chegando aqui, perguntaria pela casa do meu irmão e qualquer um saberia me informar”. Então com 16 anos, Francismar conheceu uma senhora, ainda na rodoviária, que decidiu ajudar-lhe, arrumou vaga para ele em uma pensão para moços e um emprego como servente de pedreiro.
Em pouco tempo ele conseguiu um emprego onde o salário era um pouco melhor, “Trabalhava arrumando quartos de um motel da região” diz, com um sorriso no rosto. Em seguida conseguiu vaga como lavador de ônibus, em uma empresa de transportes públicos, decidiu então que queria ser motorista, mas antes teria de resolver dois problemas, “Eu não tinha nem carteira de motorista e nem concluído o ensino médio, mas decidi correr atrás dos meus objetivos”.
Nessa época Francismar já havia comprado um barraco na favela da Cata Preta, em Santo André para fugir do aluguel, começou então a estudar para completar o ensino médio enquanto treinava para tirar a carta de ônibus, “Eu aprendi a dirigir manobrando o ônibus no pátio da empresa, acabei aprendendo a dirigir veículos grandes, sem saber dirigir carros pequenos”. Já havia constituído família, com mulher e filhos, foi então que a vida lhe reservou uma surpresa inacreditável, “Entrei em um bar para comprar algumas coisas e, como que por milagre, encontrei meu irmão jogando sinuca, ele logo me reconheceu também, fui uma felicidade muito grande”.
Assim que uma vaga de motorista apareceu, Francismar agarrou com unhas e dentes, “Isso possibilitou a compra de uma casinha, de um carro, foi muito importante”. Mas isso não chegou a contentá-lo, “Precisava de um novo objetivo, algo em que me empenhar, foi então que um sonho de criança voltou à minha mente, decidi que seria policial”. Ele então começou um curso preparatório para concursos, estudou com afinco, se preparou fisicamente, aguardando uma oportunidade, sem deixar de trabalhar como motorista. Rapidamente, após concurso público, foi incorporado à guarda civil municipal. Seu salário já possibilitava oferecer uma vida bastante digna para sua família, mas a vontade de progredir ainda não saia da sua cabeça, “Percebi que meu salário seria suficiente para realização de um outro sonho, que antes parecia muito distante, entrar na universidade”.
Em 2003, então com 27 anos, Francismar começou uma nova etapa de sua vida, entrou na universidade para cursar direito, hoje, mais precisamente no final de 2007, se tornará bacharel. “Acredito que os homens devem sempre buscar um caminho para suas conquistas, pois tudo é difícil, mas quando você acredita, tudo é possível”. Próximo passo: “Em Outubro do próximo ano irei prestar concurso para delegado”. Alguém dúvida que ele conseguirá?
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(Pixação “Os Cururus”, na zona leste)
“Eu picho, você pinta. Quem lucra é só a casa de tinta”, já dizia um ditado sobre a pichação. E com toda razão. Quem anda pela ruas de São Paulo certamente já percebeu que a “arte” trata-se de uma manifestação efêmera e gratuita.
Entretanto, o que a maioria dessas pessoas não sabe é que a pichação de São Paulo tem suas próprias diretrizes, regras e uma história que, sem querer, conta um pouco da madrugada da cidade. Nesta história, que mistura diversão e violência, vários nomes se consagraram, deixando seus rastros até hoje pelos muros, janelas e prédios da capital paulista.
É praticamente impossível, e talvez até irrelevante, apontar as origens da pichação em São Paulo. Pode-se afirmar, no entanto, que “pixos” como DI e OLODUM, inovaram esta “arte”.
No início dos anos 90, a dupla invadiu diversos prédios e até a casa dos Matarazzo, gravando seu nome na história do “pixo”. Para quem não sabe, os prédio são de fato invadidos e as pichações feitas sem nenhum tipo de segurança – geralmente uma pessoa picha, enquanto outra segura seu corpo que encontra-se quase inteiramente debruçado no vão de dezenas de metros sobre o chão.
Curioso é que, como na arte, Di só veio ganhar verdadeiro reconhecimento no meio quando acabou assassinado na porta de seu colégio, em Osasco. Sua morte, contudo, não teve relação direta com a pichação.
Brigas entre os pichadores
Mas se DI não morreu por causa da pichação, uma briga que mudou a história do movimento levou sim algumas pessoas a perderem a vida por causa do “pixo”. Já fazia parte da cultura da pichação organizar-se em grupos (sendo que cada pichador assina seu nome ao lado de seu grupo) quando alguns grupos começaram a se organizar em “grifes” – que são a união de vários grupos .
Uma dessas grifes chama-se (existe até hoje) “Os+Imundos” (Os+Im). Criada por grupos como “A Firma”, “Exorcity”, “Lin2” e “Energumenos”, a grife, por meio de divergências, acabou por criar um grupo dissidente, chamado Os Registrados no Código Penal (Os*Rgs) – que também existe até hoje.
Acirrada por “atropelamentos” (quando alguém picha em cima do outro), que contou com a adesão de grupos como “Procurados” e “Caroline.Caroline” (ambos Os*Rgs), a briga levou ao assassinato de membros de ambas as facções, como o “Telo” do grupo “A Firma” e “Lin2″.
Tiros nos pontos de encontro dos pichadores, (como o centro cultural São Paulo, próximo ao Metrô Vergueiro) foram cenas que se repetiram e continuam se repetindo por causa dessa briga.

(Bacal chegou a ser preso no Japão por causa da pichação)
“Pichar é arte, ser preso faz parte”
Mesmo sem estar envolvido em uma briga com pichadores, a “arte” certamente traz muitos riscos a quem a pratica. O pichador “Chacal” do grupo “Scorpions” (SPS) exemplifica: “Estava fazendo (pichando) uma varanda na Lapa quando comecei a ouvir uns barulhos vindo de dentro da casa. Botei o pé para fora para começar a descer, já que estava a uns 5, 6 metros de altura, quando o morador abre a janela e começa a atirar. Pulei de lá na hora e caí todo de mal-jeito, quebrando meu braço. Estava com os irmãos Gina e Andrade (que picham Humanos e Fumados, respectivamente) eles me ajudaram a pegar um ônibus sentido o hospital de Perus e foram pichar mais”, relata ele.
O pichador “Bip” do “Psicose” não teve a mesma sorte. Debruçado sobre a janela de um apartamento na zona sul, não teve tempo de escapar dos tiros do morador e acabou morrendo ali mesmo. “O problema é que acham que estamos roubando, aí atiram”, completa “Chacal”.
Sofrer violência polícia também é comum entre os pichadores. “Pichar é arte, ser preso faz parte. O mais normal é eles mandarem um pichar o outro. Mas também é comum agredirem os pichadores de todas as formas. Eles sabem que se levar para a delegacia vão acabar nos liberando”, afirma o pichador Lucas, do grupo “Afetados Pelo Sistema” (APS).
O vicio pela pichação chega a extremos, ao ponto de pichadores como o “Bacal” do grupo “Tumulos” ter sido preso no Japão por causa da pichação. “Achei estranho, não me bateram, e me colocaram numa cadeia que era quase um hotel. Mas acho que se fosse assim no Brasil, menos gente iria pichar”, revelou.
“Chacal” dá ainda instruções para quem não quer ter sua casa pichada. “Não adianta botar plaquinha pedindo para não pichar e achar que isso vai adiantar alguma coisa. O pichador só não picha um muro branquinho, já que igual aos proprietários, não queremos gastar nossa tinta a toa. O bom mesmo é muro de pedra, ou de tijolinho que não saí de jeito nenhum”, completa.

(Festa da Grife “Turma da janela”, no Tucuruvi)
Thomas Monteiro
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A extremidade norte da Brasilândia tem uma característica geográfica que a torna muito parecida com os morros do Rio de Janeiro: O relevo acidentado, cheio de colinas e vales, que proporcionam uma bela vista panorâmica das zonas norte e oeste da cidade. O Jardim Paulistano da Brasilândia, localizado no topo de um desses morros, não deve ser confundido com seu xará de grandes casarões e lojas de grife. Para se chegar lá é preciso subir um sem-número de ladeiras, passar pelo ponto final de duas linhas de ônibus e contornar a área onde está sendo construído o CEU do Jardim Paulistano.
A Brasilândia integra a lista dos distritos com maior índice de vulnerabilidade Juvenil de acordo com o SEADE. Recentemente, voltou às páginas dos jornais após ser palco da chacina mais violenta do ano, que ocorreu dia 2 de fevereiro de 2007. Seis jovens com idades entre 15 e 27 anos, moradores do bairro Jardim Elisa Maria, foram mortos por pistoleiros. Após este triste episódio, o bairro foi ocupado pela polícia numa operação batizada de Saturação.
A cada quatro meses a Rede de Organizações Sociais do Paulistano organiza a Plenária Popular do Paulistano, com o objetivo de debater com o poder público soluções para os inúmeros problemas estruturais do bairro. O que torna este formato de plenária especial é a maneira como ela é organizada. Cansados de candidatos que “sobem o morro” em ano eleitoral, e depois nunca mais colocam o pé fora do asfalto, os membros da Rede resolveram fazer um levantamento dos candidatos mais votados no distrito durante as últimas eleições, em 2006. Os candidatos são convidados a participar da plenária com objetivo de prestar contas e explicar à população o que vem sendo feito para melhorar a vida da comunidade.
A plenária é filmada para que não haja dúvida quanto ao que foi dito, evitando, segundo Fabio Ivo (presidente de uma das entidades que compõe a rede) “que os membros do poder público façam promessas vazias ou que tentem negar o que disseram”. Outros representantes do poder público também são convidados, como o subprefeito e membros das secretarias da saúde, educação e esportes. Como a primeira plenária não recebeu do poder público a devida atenção, os organizadores publicaram as decisões tomadas no encontro, junto a uma lista dos convidados que não compareceram. Os representantes eleitos que estiveram ausentes se sentiram constrangidos, e, com medo de não conseguir um próximo mandato, começaram a comparecer nas plenárias seguintes.
O frio de 8ºC e o vento não impediram a participação de cerca de 250 moradores na III Plenária do Jardim Paulistano, realizada na Praça do Divino Pai Eterno na manhã de sábado, dia 28 de julho. A quadra onde foi realizada a plenária estava lotada por homens e mulheres das mais diversas idades, entre os quais uma grande quantidade de jovens. Na escada que dá acesso à quadra e na praça mais moradores aguardavam pacientemente o início da plenária. Também estavam presentes o Subprefeito da Brasilândia, Odair Ziolli; o vereador Claudinho; o Chefe de gabinete de deputado federal Paulo Teixeira; o Assessor do deputado estadual Simão Pedro e chefes de diversas coordenadorias. Não compareceram representantes da Secretaria de Esporte, Secretaria de Habitação, CDHU e Sabesp. Ainda assim a realização da III Assembléia da Rede de Organizações Sociais do Jardim Paulistano foi muito positiva, com resultados concretos e valiosos para o bairro.
Foto por Júlia Sampaio
Gil Alessi

