Nbjolpuc’s Weblog


Série Migrantes: Nordestinos.
Setembro 1, 2007, 7:59 pm
Filed under: Babilônia

A luta daqueles que escolheram São Paulo como lar.

O processo migratório de nordestinos para São Paulo tem seu primeiro registro em 1.901. O fluxo desses migrantes começou a intensificar-se em 1.923, quando foi registrado um grande número de entrada de nacionais no Estado Paulista, que, juntamente com a mão de obra estrangeira, passou a desempenhar importante papel na sociedade, ainda predominantemente rural, da época.

Em 1935, o governador Armando Salles de Oliveira, passou a estimular a migração de nordestinos para São Paulo, estipulando contratos com empresas particulares, em que trabalhadores migrantes seriam introduzidos na produção, através do pagamento da passagem para vinda ao estado bandeirante e de um pequeno salário para sustento da família do trabalhador. Deu-se, neste momento, o “boom” migratório, originando a grande quantidade de nordestinos estabelecidos em São Paulo. São esses personagens, com todas as suas peculiaridades, os alvos de nossa reportagem. 

“Entrando de cabeça” nas dificuldades

Se hoje, em plena era da chamada globalização, é difícil a chegada e a ambientação de uma pessoa a um lugar desconhecido, em meados de 1.950, esse calvário era ainda maior.  É o caso do migrante Sergipano, José Joaquim do Santos, 75, que chegou a São Paulo em 1948 de forma traumática. Após dias de viajem em um caminhão “pau-de-arara”, José literalmente “caiu de cabeça” na capital paulista. Quem conta a história é o próprio: “Eu tinha 16 anos na época, quando soube que um caminhão estava saindo de Sergipe e vindo para São Paulo. Me escondi no meio dos trabalhadores e vim para cá, apenas com a roupa do corpo”.  Na chegada, a primeira grande provação, “O caminhão tombou com todo mundo dentro, o pessoal se machucou demais. Eu tive um corte na cabeça, bem no meio da testa, tive que enfiar a cabeça na areia para o sangramento parar”. Levado ao hospital das clínicas, o garoto, que não conhecia ninguém na cidade, despertou a compaixão de um médico, que ajudou o jovem sergipano a conseguir o primeiro emprego: ajudante de pedreiro. 

José trabalhou com afinco nas construções da capital paulistana. Nos finais de semana, trabalhava na perfuração de poços artesianos na região de Caieiras, local onde firmou moradia. “Com muito sacrifício consegui construir minha casa, fiz um trabalho muito bonito. Tudo que eu fazia era bem feito, por que eu fazia com vontade” afirma. Após anos na construção civil, ajudando a construir parte da história da cidade, José, que na época já começara a constituir família, passou a trabalhar como metalúrgico, “Foi uma época difícil, pois os filhos eram pequenos, muitas bocas para alimentar”. Muitas bocas mesmo, ele é pai de 11 filhos “todos bem criados e trabalhadores”, trabalhou ainda como motorista durante mais de 20 anos, profissão na qual se aposentou.

Hoje, 59 anos após sua chegada, José só tem motivos para comemorar, “Meus filhos são todos maravilhosos, nenhum saiu da linha, mesmo com todas as dificuldades, me deram netos muito bons também, já tenho quatro bisnetos e mais dois estão a caminho”. Alicerce de uma família bem estruturada, José atualmente é pastor da igreja evangélica Assembléia de Deus, onde tenta ensinar, através da sua vivência, bons exemplos para os jovens.    

 digitalizar0002.jpg    

Vencendo, também, no alto empresariado.  

É Comum e errôneo, chega até a ser xenófobo, o pensamento de que os migrantes nordestinos estão fadados apenas a exercerem atividades braçais em São Paulo. Não que essas atividades não sejam importantes, o exemplo anterior é prova disso, mas são vários os casos de pessoas que já chegam com cargos de gerência. Exemplo vivo dessa vertente é o empresário Nilson de Almeida Cruz, 62.

Natural de Recife e trabalhando em Fortaleza, Nilson já tinha a vida profissional estruturada, exercia cargo de gerência na Cobra Computadores, maior empresa brasileira de informática da época, quando recebeu uma proposta tentadora, “Sair da penúltima filial, para assumir a gerência da primeira. Foi um grande e maravilhoso desafio”. Dessa forma, em Julho de 1979, o empresário desembarcava na capital paulista. Sua chegada foi marcada por muito trabalho “trabalhava 12 horas por dia, pois, recebia 14 malotes diários até que por minha conta resolvi delegar muita coisa para os supervisores, o que reduziu para 4 malotes e me permitiu administrar melhor a filial e visitar clientes importantes”.

Mesmo exercendo cargo tão importante, a vida profissional de Nilson não esteve livre de percalços, “A Cobra foi encolhida por decisão do Governo para deixar o mercado mais livre para as empresas privadas. Assim, a minha função foi extinta quando era o superintendente regional sul (de São Paulo até o Rio Grande do Sul), montei, então, uma empresa de informática com produtos usados da Cobra e dava cursos de vendas com duração de 40 horas”. Foi então que o empresário decidiu mudar de ramo, “Com o advento dos micros as margens apertaram muito e assim migramos gradualmente para a área de turismo, onde permanecemos até o presente momento”. Hoje Nilson é dono da Walk Brasil Turismo, empresa com 13 anos de mercado.

Engana-se quem pensa que o maior momento de frustração do empresário está ligado ao trabalho, “O pior momento em São Paulo, foi a morte prematura de Ayrton Sena, pois, eu morava na rua Tupi, a 50 metros do apartamento dele e diversas vezes via a gurizada em baixo do prédio que ele morava, esperando a saída em sua lótus preta, com uma simplicidade extraordinária jogar um boné para esses garotos. Um dia estou saindo do meu prédio e vejo um alucinado deixar a porta do monza aberta e sair correndo atrás do Senna para conseguir um autógrafo e ele sozinho no carro, parou, deu o autógrafo, sorriu e é claro eu também peguei o meu autógrafo. Naquele 1º de maio eu ia com a família para Aparecida. Esperei a largada e quando vi o acidente, ele tombou a cabeça, eu sabia que tudo estava consumado e fui rezar por ele”. O empresário garante que “Se fosse possível voltar o tempo o que eu faria se pudesse era ter vindo antes e continuar trabalhando em grandes empresas”.

 

 

Uma revolução em 14 anos

Francismar Geronimo Lino, 31, cearense de Altanera, veio para São Paulo, em busca do irmão, no início de 1993. Ele pegou o ônibus, que vinha para capital paulista, apenas com a roupa do corpo e sem saber nem ao menos onde o irmão morava, “Eu achava que chegando aqui, perguntaria pela casa do meu irmão e qualquer um saberia me informar”. Então com 16 anos, Francismar conheceu uma senhora, ainda na rodoviária, que decidiu ajudar-lhe, arrumou vaga para ele em uma pensão para moços e um emprego como servente de pedreiro.

Em pouco tempo ele conseguiu um emprego onde o salário era um pouco melhor, “Trabalhava arrumando quartos de um motel da região” diz, com um sorriso no rosto. Em seguida conseguiu vaga como lavador de ônibus, em uma empresa de transportes públicos, decidiu então que queria ser motorista, mas antes teria de resolver dois problemas, “Eu não tinha nem carteira de motorista e nem concluído o ensino médio, mas decidi correr atrás dos meus objetivos”.  

Nessa época Francismar já havia comprado um barraco na favela da Cata Preta, em Santo André para fugir do aluguel, começou então a estudar para completar o ensino médio enquanto treinava para tirar a carta de ônibus, “Eu aprendi a dirigir manobrando o ônibus no pátio da empresa, acabei aprendendo a dirigir veículos grandes, sem saber dirigir carros pequenos”. Já havia constituído família, com mulher e filhos, foi então que a vida lhe reservou uma surpresa inacreditável, “Entrei em um bar para comprar algumas coisas e, como que por milagre, encontrei meu irmão jogando sinuca, ele logo me reconheceu também, fui uma felicidade muito grande”.

Assim que uma vaga de motorista apareceu, Francismar agarrou com unhas e dentes, “Isso possibilitou a compra de uma casinha, de um carro, foi muito importante”. Mas isso não chegou a contentá-lo, “Precisava de um novo objetivo, algo em que me empenhar, foi então que um sonho de criança voltou à minha mente, decidi que seria policial”. Ele então começou um curso preparatório para concursos, estudou com afinco, se preparou fisicamente, aguardando uma oportunidade, sem deixar de trabalhar como motorista. Rapidamente, após concurso público, foi incorporado à guarda civil municipal. Seu salário já possibilitava oferecer uma vida bastante digna para sua família, mas a vontade de progredir ainda não saia da sua cabeça, “Percebi que meu salário seria suficiente para realização de um outro sonho, que antes parecia muito distante, entrar na universidade”.

Em 2003, então com 27 anos, Francismar começou uma nova etapa de sua vida, entrou na universidade para cursar direito, hoje, mais precisamente no final de 2007, se tornará bacharel. “Acredito que os homens devem sempre buscar um caminho para suas conquistas, pois tudo é difícil, mas quando você acredita, tudo é possível”. Próximo passo: “Em Outubro do próximo ano irei prestar concurso para delegado”. Alguém dúvida que ele conseguirá?

reco0220.jpg  


Deixe um Comentário so far
Deixe um comentário



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: